Carga e descarga sem segurança: quando uma operação de poucos minutos pode custar uma vida

A morte de um motoboy que estava trabalhando deveria provocar muito mais do que tristeza. Deveria provocar indignação e uma investigação séria sobre as condições de segurança existentes no local onde ocorreu o acidente.

O trabalhador ficou gravemente ferido após, segundo relato de uma colega, ser atingido por madeira durante uma operação de descarga de um caminhão em uma avenida do bairro Mandacaru, em Petrolina. Ainda conforme o relato, a carga teria ficado parcialmente atravessada na via, sem a sinalização necessária e em condições que teriam colocado quem passava pelo local em risco.

O trabalhador não resistiu e morreu neste domingo (20).

É preciso deixar claro: as circunstâncias ainda precisam ser apuradas pelas autoridades. Mas, do ponto de vista da Segurança do Trabalho, uma pergunta é inevitável: quais medidas de prevenção foram adotadas antes de iniciar aquela operação?

A NR-1, que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, determina que a organização identifique os perigos, avalie os riscos e implemente medidas de prevenção. O gerenciamento deve contemplar também os riscos de acidentes e acompanhar a eficácia das medidas adotadas.

Já a NR-11, voltada ao transporte, movimentação, armazenagem e manuseio de materiais, estabelece requisitos relacionados à segurança dessas operações.

Em operações de movimentação e descarga, princípios básicos de prevenção incluem planejamento da atividade, estabilidade da carga, isolamento da área de risco, sinalização adequada, controle da circulação de pessoas e veículos e trabalhadores devidamente capacitados. A NR-18, por exemplo, prevê, para situações abrangidas por seu campo de aplicação, medidas de sinalização e isolamento e proíbe a circulação ou permanência de pessoas sob áreas de movimentação de cargas.

E aqui está o ponto mais grave: se uma carga estava realmente projetada sobre a via, atingindo a altura de quem trafegava de motocicleta, não estamos falando apenas de uma operação de descarga, estamos falando de um risco que precisava ser identificado e controlado antes que alguém fosse colocado em perigo.

Capacete é importante. EPI é importante. Mas EPI não substitui proteção coletiva, planejamento e controle do risco. A própria NR-1 estabelece prioridade para medidas de prevenção e, quando necessário, medidas administrativas e EPI de forma complementar.

O trabalhador saiu de casa para fazer uma entrega e voltou para sua família como vítima de uma tragédia que precisa ser esclarecida.

Segurança do Trabalho não pode existir apenas no papel, na assinatura de documentos ou durante fiscalizações. Ela precisa estar presente justamente quando uma atividade começa.

Se houve falha de planejamento, sinalização, isolamento ou controle da operação, que isso seja apurado e que os responsáveis respondam dentro da lei.

Uma vida não pode ser o preço de uma carga que poderia ter sido descarregada com segurança.

Lailson Silva – Técnico de Segurança do Trabalho
Blog Vale em Foco

0 Comentários

Postar um comentário

Deixe seu Comentário (0)

Postagem Anterior Próxima Postagem