Não dá pra tratar isso como um simples “desabafo político”. Quando uma autoridade pública escolhe as palavras que usa, principalmente em um vídeo que alcança a população, existe responsabilidade, e nesse caso, ela foi ignorada.
No vídeo, o prefeito de Andrei Gonçalves adota um tom claramente pejorativo ao se referir ao influenciador Anderson196 como “forasteiro”. A escolha desse termo, carregada de conotação negativa, não é neutra, ela sugere exclusão, deslegitima a fala do outro e, pior, abre espaço para uma narrativa de rejeição a quem não é “da terra”.
E isso entra em choque direto com a realidade de Juazeiro.
Juazeiro sempre foi, historicamente, uma cidade de portas abertas. Um polo que cresce justamente pela mistura de gente: trabalhadores, comerciantes, produtores e sonhadores vindos de várias regiões do Brasil. Grande parte da força que movimenta a economia local, especialmente na fruticultura irrigada do Vale do São Francisco — vem de pessoas que deixaram suas cidades de origem para tentar uma vida melhor aqui.
São homens e mulheres que acordam cedo, enfrentam o sol forte, trabalham nos perímetros irrigados, nas fazendas, nas packing houses, e ajudam a colocar a produção de frutas da região no cenário nacional e internacional. Muitos desses trabalhadores também poderiam ser chamados, de forma fria, de “forasteiros”. Mas na prática, são eles que ajudam a construir Juazeiro todos os dias.
Ao usar esse termo de forma pejorativa, o prefeito não atinge apenas um influenciador. Ele atinge, simbolicamente, toda essa população que veio de fora e encontrou na cidade uma oportunidade digna.
Outro ponto preocupante é a falta de maturidade ao lidar com críticas. O vídeo de Anderson196, ao fazer comparações com Petrolina, pode até ser questionado, afinal, toda análise comparativa tem seus limites e recortes. Mas comparar cidades vizinhas não é crime, nem desrespeito. Pelo contrário, pode ser um instrumento válido para apontar diferenças, levantar debates e até inspirar melhorias.
Petrolina e Juazeiro vivem uma relação histórica de proximidade e rivalidade saudável. Mostrar “prós e contras” faz parte de qualquer debate público minimamente democrático. O que não cabe é transformar isso em ataque pessoal ou desqualificação baseada na origem de quem fala.
Faltou ao prefeito algo essencial para quem ocupa o cargo que ocupa: empatia e equilíbrio. Um gestor público precisa saber ouvir, filtrar críticas e responder com argumentos, não com rótulos.
No fim das contas, a fala acaba sendo menor do que o cargo. E Juazeiro, com sua história de acolhimento, trabalho e diversidade, merece muito mais do que isso.
Lailson Silva – Blog Vale em Foco

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