Meritocracia - por Reginho da Bahia


Uma escola de ensino médio no Rio Grande do Sul costuma fazer eventos para estimular os alunos a passar no Enem e em vestibulares. O nome da atividade é “se nada der certo”. Através dela, os estudantes virão trajados de hippies, lavradores, jornaleiros, garis, vendedores ambulantes e catadores de material reciclável, já que não é mais politicamente correto usar o termo catador de lixo. De acordo à instituição, além de momento de descontração, a mesma valia para incentivar os alunos a estudar mais. O evento simularia o futuro, em caso de fracasso no vestibular.


Entretanto, como era de se esperar, muitas pessoas inundaram as redes sociais com reclamações contra a atividade. Consideraram injuriosa contra pessoas que ocupam essas profissões. Viram-na como um deboche, pois esses profissionais foram pejorativamente rotulados na sociedade e tiveram sua dignidade diminuída. Somente depois da repercussão negativa que os dirigentes da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo(IENH) decidiram publicar uma nota de retratação. De acordo à nota, foi feito um pedido de desculpas pelo que chamou de mal-entendido". Disse que, não houve objetivo de discriminar determinadas profissões e que o objetivo principal da atividade foi trabalhar o cenário de não aprovação no vestibular e não de fazer referência ao “não dar certo na vida". Termina dizendo que visava a auxiliar na "sensibilização dos alunos quanto a conscientização da importância de pensar alternativas no caso de não sucesso no vestibular e também a lidar melhor com essa fase".

Será que o pedido de desculpas foi por de fato reconhecer um erro ou devido ao impacto financeiro que isso poderia causar à empresa pela repercussão negativa ? Não há como saber. O importante é que houve uma pressão que resultou numa mudança de comportamento. Uma vendedora postou numa rede social: “Senti-me humilhada por ser considerada uma pessoa que não deu certo!”
Por outro lado, era comum os pais estimularem os filhos aos estudos com frases do tipo “estude para ser alguém na vida!”. Pelo visto, os pais que fizeram isso acreditavam que o respeito dado pela sociedade às pessoas que ocupam as profissões de menor remuneração era menor. E que, pelo dinheiro recebido, o padrão material de vida será limitado de forma que algumas realizações que incluem consumo serão obstadas ou mesmo serão impossíveis. Não significa, porém que a dignidade da profissão seja menor nem que alguém mereça menos respeito da sociedade por ocupar uma profissão dessas, assim como também não é necessariamente a realização material que vai promover a felicidade.


Na sociedade feudal, existiam estamentos rígidos. Não havia qualquer possibilidade nem de ascensão nem de descenso. Desde o nascimento que a posição social e os privilégios de cada um já estavam definidos. Assim, a nobreza se relacionava e se perpetuava com a nobreza e o mesmo vale para os servos. Quando a burguesia tomou consciência de que eram seu trabalho e seu dinheiro que sustentavam a sociedade, lutou para que outros fossem os critérios de definição da pirâmide social. Defendiam então o que passou a se chamar de meritocracia. Trata-se de não haver qualquer privilégio anterior, para que cada um seja livre para buscar sua posição social. As regras seriam justas e iguais, para que apenas o talento e o esforço fossem determinantes para o sucesso de alguém na sociedade. 
Existem diversas formas de prosperar na vida. Jogos de azar, artes, criação de produtos, vendas, etc... Entretanto, a regra é que isso se dê através dos estudos. A lei determina que o piso salarial de uma categoria seja definido de forma proporcional à extensão e à complexidade do trabalho. Apesar de não haver uma definição específica do que significam, o entendimento dominante é que devem ser mais valorizadas as profissões que exigem maior grau de dificuldade para se qualificar e executar. Seguindo esse critério, o técnico contábil deve receber mais que uma empregada doméstica, pois o técnico tem que estudar mais e lidar com elementos mais complexos do que as tarefas domésticas exercidas pela empregada. Isso é algo relativo, pois não há um critério científico e objetivo para determinar qual trabalho é mais complexo. O que é mais difícil de exercer: a técnica em enfermagem ou a técnica agrícola ? A técnica em edificações ou a técnica em radiologia ? Todos quererão valorizar sua própria profissão.

A verdade é que todos projetam o melhor para si. Pode perguntar a qualquer criança o que quer ser quando crescer. As principais respostas serão: médico, modelo, jogador de futebol, advogado, delegado, juiz e similares. Quando a mesma pergunta é feita a alunos concluintes do Ensino Médio e estudantes pré-universitários, as carreiras mais procuradas são Engenharias, Medicina, Direito, Odontologia, Farmácia e outros. Os cursos de Licenciatura são os que possuem menor procura. Por quê ? Simples. As pessoas se identifica com cursos que dão mais projeção social e possibilidade de acumulação de patrimônio, coisas que podem ser sinônimas. A remuneração e o respeito que a sociedade atribuem aos profissionais de educação é mínimo. Não são muitos que tem coragem e disposição para sacrificar seu bem-estar material para se realizar profissionalmente.

Se muitos não querem abraçar a docência, que é carreira de Nível Superior, por que iriam abraçar voluntariamente ser jornaleiro, catador de material reciclável, gari ou vendedor ambulante ? Quem foi que quando criança que disse que sonhava em ser catador de caranguejo, guardador de carros ou peconheiro ? Quem acha interessante ter como primeira opção de profissão estar em pé durante 8 horas numa loja para atender clientes vaidosos que pedem para ver 14 peças de roupa antes de escolherem uma, isso quando escolhem ? E além disso, o vendedor tem que aturar muita indelicadeza de patrão e clientes, se quiser manter o emprego, pois existe uma frase que afirma que “o cliente sempre tem razão”. Creio que ninguém faria essas opções. Muitos entraram nessa vida porque não tiveram oportunidade de estudar ou até tiveram e desperdiçaram por algum motivo como formação precoce de família ou inaptidão com os estudos. Não optaram por isso. Não há como conceber alguém ter escolhido estar sob um sol de semiárido nordestino para cortar cana, quando existiam outras opções para isso. As próprias pessoas que exercem essas funções querem que seus filhos estudem, justamente para que não tenham a mesma vida delas. O próprio carroceiro fala isso para seus filhos. Quando vão numa reunião escolar, eles mesmos dizem: “Eu sempre digo a ele que o que eu posso deixar para ele é o estudo!”, “Ele tem que estudar, pois ele vê a dificuldade que eu passo na vida porque eu não estudei!”

A própria política de cotas sociais comprova que os pobres precisam de mais oportunidades porque reconhecem que são pobres justamente porque precisam ter acesso ao Ensino Superior, o qual lhes dá possibilidade de ter acesso aos melhores empregos. Todos eles relatam as dificuldades pelas quais passam. Falam que sofrem no emprego, mas precisam perseverar porque só assim podem ter condições de cursar uma faculdade que lhes dará uma vida melhor. É o caso de um repositor de supermercado. Coloca mercadorias na prateleira, retira mercadorias da prateleira e recolhe mercadorias que os clientes tiraram do lugar e não quiseram levar. Deve ser respeitado por isso ? Sim. Trata-se de um trabalho digno ? Evidentemente que sim. Mas é possível melhorar. O repositor pode ser feliz com esse trabalho e com essa remuneração ? Sim, desde que ele não vincule necessariamente a felicidade ao padrão de consumo. Mas o que não se pode negar é que a vida oferece a possibilidade de tentar ser feliz numa outra profissão que lhe dê um maior poder de consumo. Todos tem o direito de tentar melhorar nesse aspecto a depender de suas individualidades. O que não se pode negar é que os piores salários ficam para aqueles que menos estudaram e que os melhores salários ficam para aqueles que mais estudaram. É uma realidade dura e que deve ser apresentada com cautela, para que não eleve demasiadamente a autoestima daqueles que “deram certo” e nem para que reduza em excesso a autoestima daqueles que “não deram certo”. Mas o que não se deve negar é que é uma realidade do mundo capitalista.

Por Reginho da Bahia

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